Ponto de vista


A COISA ESTÁ BRABA, AIRTON

15/fevereiro/2012

 

Advogada afronta juiza, terrorista recebe tapinhas nas costas, envolvidos em mensalões continuam impunes, conselheiros éticos podem perder mandatos.

 

COMO costumava dizer, com a franqueza que o caracterizava, meu bom amigo Airton Soares, “a coisa está braba”. O bom, o honesto, o correto, o fiel Airton, que conheci no jornal e que foi peça fundamental na implantação da Associação Mineira de Imprensa, a nossa saudosa AMI, em sua sede na rua da Bahia, nos idos dos anos 60 do século passado, o grande Airton morreu na madrugada do dia 5, no “Vera Cruz”. Ele estava sendo operado, ponte safena, na tarde de sábado, dia 4, quando sofreu um AVC. Não resistiu. Levou com ele a mágoa de ter perdido sua segunda casa, a AMI, por culpa da pequeneza humana. Deixou uma família formada no melhor padrão moral que ele cultivava, a esposa Eny, os filhos Luana, Luan e Airton Júnior. Um exemplo, o bom Airton.

 

REPITO Airton: a coisa está mesmo braba. Uma advogada em lua de mel com a publicidade gratuita que ganha em São Paulo, por atuar em julgamento que atrai atenção da mídia, não respeitou a juíza que presidia o júri, e que estranhou um de seus pedidos estapafúrdios, mandando que magistrada “estude mais”. Nos bons tempos, em que o respeito imperava no Judiciário, ela seria punida. Hoje, sua reação agressiva e maleducada, é manchete nos jornais.

 

O QUE esperar, afinal, de um Judiciário que pratica o desentendimento público entre seus maiores e que pretende se situar, como dizia Milton Campos, acima das leis e dos homens, e que colabora para a impunidade? Veja-se o caso do terrorista italiano, Cesare Battisti autor de vários crimes de morte em seu país, condenado a prisão, e que hoje vive tranquilo no Brasil, para onde fugiu e conseguiu “asilo político” concedido pelo ex-presidente Lula da Silva, amparado em parecer do seu ministro da Justiça Tarso Genro. O Supremo Tribunal Federal foi acionado, mas preferiu “lavar as mãos”, deixando a decisão final para o presidente da República. Deu no que deu.

 

O CRIMINOSO refugiado nas terras de Lula ressurgiu no noticiário há dias. Ele visitou o seu protetor, o petista Tarso Genro, hoje governador do Rio Grande do Sul.  As imagens mostradas pela TV mostram Genro abraçando Baptisti. As autoridades italianas, que ainda protestam contra a decisão brasileira, devem ter ficado ainda mais revoltadas. Mas Battisti não se contentou com o abraço de Tarso Genro. Fez uma visita formal ao Congresso Nacional, para agradecer o apoio que recebeu de senadores e deputados ligados ao governo. Foi filmado, recebendo tapinhas nas costas e agrados outros dos representantes do povo brasileiro na Câmara e no Senado. Só falta, agora, uma visita sua ao Supremo. Uma vergonha, não é mesmo Boris Casoy?

 

A COISA “está braba” também no ambiente político. O sempre presente publicitário Marcos Valério, o dos mensalões, o mineiro (quando será julgado pelo Supremo?) e o nacional (dizem que será colocado na pauta do STF em março), foi condenado mais uma vez pela justiça federal em Minas Gerais. A primeira condenação foi a quatro anos, a de agora, a nove anos. Mas ele continua circulando por aí. Aliás, os seus companheiros dos mensalões mineiro e nacional, também. Reclamar, a quem, como?

 

E PARA encerrar, a bomba explodiu em Brasília. A Comissão de Ética Pública da Presidência da República, que tem na presidência o ex-ministro do Supremo José Paulo Sepúlveda Pertence (mineiro, ex-aluno da nossa gloriosa Faculdade de Direito, para honra nossa), decidiu abrir processo contra um ministro do governo Dilma, o Fernando Pimentel. Ele é acusado de prática de atos irregulares quando prefeito de Belo Horizonte (“dispensa indevida de licitação e de desvio de recursos em proveito alheio”), e de enriquecimento, mais de R$ 2 milhões, através de consultorias que não prestou, inclusive à Federação das Indústrias de Minas Gerais, nos tempos de Robson Andrade.  A informação está na mídia: a presidente Dilma Roussef não gostou da decisão da Comissão de Ética, pois queria ser “avisada” com antecedência da pauta da reunião da Comissão (o presidente Sepúlveda Pertence proibiu que a informação fosse dada), e ainda, que a Comissão estaria “extrapolando suas funções” ao tomar decisões contra seus ministros “com base em denúncias de jornais”.

 

O VELHO e bom cidadão Airton Soares não está aqui mais para comentar que “a coisa está braba”. Infelizmente, Airton, está. E pode piorar, pois Dilma, está nos jornais, irritada com a decisão da Comissão de Ética no caso Pimentel, teria decidido antecipar a troca de cinco dos sete integrantes do órgão. Descanse em paz, grande guerreiro. Mas a sua batalha, a contra os desmandos morais, continua.

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 11h20
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