Ponto de vista


LACERDA, QUINTÃO, MESMOS NOMES, MESMAS DÚVIDAS

15/maio/2012

A história se repete. No caso da eleição para a Prefeitura de BH, parece que o filme é uma reprise de 2008.

 

 

"SE me perguntarem quem, além de Márcio Lacerda, ganhou a eleição no dia 26 (de outubro de 2008, encerramento da apuração do segundo turno), não teria dúvida em apontar Aécio. Ele foi o grande vitorioso, por ter conseguido transformar um senhor sério, educado, fechado, certamente competente, em campeão de votos obtido em um eleitorado extremamente politizado, como é o da capital do Estado. Mas não apenas por isso Aécio foi o grande vencedor. Com habilidade, que herdou de seu mestre e avô, Tancredo Neves, e também de seu pai, o ex-deputado estadual e federal Aécio Ferreira da Cunha, modelo de simpatia e de honradez, o governador mineiro conseguiu o que a muitos parecia quase impossível: retirou do controle dos petistas a administração do município mais importante e populoso do Estado. O PT manda na Prefeitura há 16 anos. Apesar de conviver muito bem com Fernando Pimentel, que poderia ter feito seu sucessor com um candidato de seu partido, Aécio ficará muito mais tranquilo com um técnico neutro, muito amigo, nem petista, nem tucano, na Prefeitura. Um técnico que foi um dos secretários de seu governo (por indicação do ex-ministro Ciro Gomes, do Ceará). Para as justas ambições políticas do governador, e elas incluem a presidência da República, Márcio Lacerda prefeito será, sem dúvida, um aliado totalmente confiável".

 

O TEXTO acima foi escrito em 30 de outubro de 2008, e pode ser acessado no blog em que este também está sendo divulgado. O dia 26, lá no começo, se refere à data em que a justiça eleitoral proclamou o resultado da apuração do segundo turno, disputado entre Lacerda e Leonardo Quintão, do PMDB.

 

EM outro tópico daquele artigo, velho de quatro anos, comento que "o notável, no episódio, é que o afastamento do PT do comando municipal foi alcançado sem que ninguém se machucasse. Valeu, apenas, o poder de persuasão, de convencimento, do jovem e hábil governador". E mais adiante: "Como a política é mutável, permanece uma dúvida: se, no futuro, os interesses de Aécio e de Pimentel não coincidirem, vamos supor, uma candidatura petista, Dilma, por exemplo, contra Aécio ou Serra, pelos tucanos, com quem ficaria o prefeito? Fiel ao PT de Pimentel, ou ao PSDB de Aécio, ou a nenhum dos dois?".

 

COMO se pode perceber, o que eu disse em outubro de 2008 poderia ser publicado agora, em 2012, pois a escolha dos candidatos à Prefeitura, em outubro próximo, parece girar em torno dos mesmos nomes, das mesmas dúvidas. De um lado Márcio Lacerda, do PSB, com o apoio do PT, disputando a renovação do apoio do PSDB de Aécio. Do outro lado, o mesmo Leonardo Quintão, do PMDB, além de outros mais. E a dúvida continua a mesma, quatro anos já passados: se for eleito, Lacerda apoiaria um candidato do PSDB, no caso Aécio, à presidência, ou apoiaria, como parece ter feito em 2010, a candidatura petista de Dilma, preterindo, embora não abertamente, a do tucano José Serra?

 

NA política, as coisas mudam, como as nuvens de Magalhães Pinto. Mas nem tanto. O panorama de 2008 se repete, agora, em 2012.

 

VALE ainda relembrar o comentário feito neste blog, em 30 de outubro de 2008, sobre o resultado da eleição, que pode ajudar os que planejam vencer em outubro de 2012. Repito o que escrevi na época: "Quem ganhou em Belo Horizonte? Se fizermos as contas, baseados nos números fornecidos pelo TRE, chegaremos a resultados curiosos. Vamos a eles. O número total de eleitores inscritos é de 1.722.227. Márcio Lacerda teve 767.332 votos. Subtraindo-se o número de votos de Márcio do total de inscritos, o resultado é impressionante: 1.004.895 não votaram no candidato do PSB-Aliança, ou seja, 56,7%. Eles incluem os 530.560 que votaram em Leonardo Quintão, mais 315.019 que não compareceram para votar, mais 107.981 que anularam o voto, mais 51.335 que votaram em branco".

 

REPITO aqui o que escrevi em 2008 para mostrar que na história tudo se repete - alguém já disse isso - e para que os analistas de hoje façam suas projeções com os dados e com os números de ontem. Desejando, logicamente, que o escolhido pelo eleitorado seja o melhor para a nossa cidade, tão necessitada de obras, de planejamento, de respeito ao meio ambiente, de metrô, de hospitais, de escolas, de creches, de redução dos estacionamentos rotativos, que enchem os cofres municipais mas engarrafam as nossas ruas e avenidas, resumindo, de respeito ao contribuinte, aquele que, ao cabo e ao final, paga as contas, e o pato...

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 15h12
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FALTA DE SEGURANÇA NAS ESTRADAS E NOS CELULARES

8/maio/2012

A solução é simples: copiar o que fazem os países civilizados e proibir o anonimato nas ligações telefônicas. Só depende do governo.

OS jornais, os impressos e os da TV, mostram todos os dias a precária segurança oferecida aos cidadãos pelos órgãos governamentais que cuidam do assunto. O Brasil está entregue à marginalidade, que ataca impunemente, e aos irresponsáveis que matam todos os dias, "sem a intenção de matar", como dizem os advogados de defesa, nas estradas de todo o país.

O QUE fazer para melhorar a situação, que caminha para o caos absoluto? Quantos aos acidentes de trânsito, seria prudente copiar o que fazem os países mais desenvolvidos, os do chamado primeiro mundo. Os abusos cometidos por motoristas embriagados e/ou alucinados, nas rodovias, poderia ser contido, ou pelo menos, reduzido, se o policiamento existisse em caráter permanente, e de forma eficaz.

VAMOS pegar uma estrada, recordista em acidentes graves, a BR-040, especialmente no trecho Belo Horizonte-Barbacena, o pior de todo o trajeto. Não apenas pelos buracos, pela falta de acostamento em pista que deveria ser duplicada. As verbas federais necessárias são sempre negadas para recompor as pistas e para ampliá-las, apesar das promessas dos presidentes. Todos os dias, mais acentuadamente nos fins de semana e nos feriados, ocorrem ali acidentes quase sempre com mortos.

A CULPA é dos motoristas, que abusam da velocidade, das ultrapassagens indevidas e proibidas, que dirigem alcoolizados. Mas é maior, ainda, dos responsáveis pelo policiamento rodoviário, que deveriam coibir tais abusos. Raramente uma viatura policial é vista circulando naquele trecho, aliás, em todos os trechos. E quando surge, vem com as luzes piscando, anunciando sua chegada, alertando os que desobedecem as normas de trânsito.

QUEM já dirigiu fora do país, nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa, percebe a diferença da ação fiscalizadora. Os carros policiais circulam em todos os sentidos, sem anunciar sua presença com luzes piscadoras e letreiros nas laterais. Os que policiam usam carros comuns, sem identificação. Quando percebem uma irregularidade, um motorista em velocidade excessiva, ou praticando direção perigosa, os carros da polícia civilizada colocam na capota, no teto, uma lanterna de luz vermelha piscando, seguem o infrator e o obrigam a encostar à margem, para a verificação, inclusive do teor alcoólico, da documentação. Constatada a infração, tomam a direção do veículo e o levam para o posto policial mais próximo.

SE dá resultado nos Estados Unidos, no Canadá, na Alemanha, na Holanda, na Finlândia, até no vizinho Uruguai, por que não adotar o mesmo sistema aqui? O custo seria zero, os resultados seriam altíssimos.

QUANTO a outros crimes, vale lembrar por estarem sendo bastante repetidos, os de falsos sequestros. Um bandido telefona para sua casa, usando celular sem registro do número de origem, e faz ameaças, exigindo pagamento para não executar o que anunciou, matar, estuprar, e até mesmo, o mais recente, envolvendo conhecida artista de tv, divulgar pela Internet fotos comprometedoras obtidas de forma criminosa. Por que isso é possível e está tão disseminado? A culpa é da tal alta tecnologia de comunicação. O celular, que entra livre e solto nos presídios, com a suposta conivência dos carcereiros, tem dispositivo que não deixa aparecer na tela de quem recebe a ligação o número do telefone de quem telefonou. Vê-se, apenas, a palavra "Nova Chamada", ou "Desconhecido", no lugar que seria destinado ao número do aparelho celular. A ameaça, a chantagem, é feita, e nada se pode apurar quanto à sua origem.

ESTÃO certos os concessionários que exploram as linhas telefônicas de celulares, em permitir o segredo? Logicamente, não. Seria o caso de quem concede os serviços, que enriquecem alguns empresários sortudos, proibir o uso da tecla que garante o anonimato, a não ser em casos muitos especiais. Quem concede é o governo. A ele caberia reexaminar o assunto, em defesa da população desamparada, amedrontada, assustada. Por que não faz? A pergunta fica aí, aguardando resposta. Até quando?

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 11h13
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OLHOS D'ÁGUA VIROU OFICINA DE DESMONTE

3/maio/2012

 

 

Impunidade, policiamento precário, apuração deficiente, geram a insegurança que tomou conta do país. Minas, inclusive.

 

 

NÃO é preciso lembrar, nem repetir. Os dois problemas maiores do país, causa e origem de tantos outros, e são tantos, são a falta de segurança e a impunidade. Os dois intimamente ligados, um, a impunidade, provocando o outro, a falta de segurança.

 

ELES ocorrem em todo o país, mais acentuadamente em alguns estados, certamente os que não contemplam boa estrutura policial. Minas, infelizmente, é um deles. Apesar dos esforços, da competência, do conhecimento da área de segurança do atual governador, que já foi titular da secretaria encarregada de assegurar à população a tranquilidade a que todos têm direito.

 

POR que isso acontece? Cabe aos analistas, aos especialistas, aos doutos no assunto, fazer o diagnóstico e indicar os remédios que a grave doença social exige.

 

COMO leigos, como cidadãos pensantes, já anotamos em nossos escritos algumas sugestões. Parece que não foram executadas, ou não deram o resultado esperado, pois os assaltos, os latrocínios, os homicídios permanecem em escala ascendente na estatística oficial.

 

O POLICIAMENTO de nossas cidades é deficiente. Há poucos policiais nas ruas, são raras as aparições de viaturas dos órgãos de prevenção - a melhor política é a de prevenir, de evitar - e de repressão. Falta de verba ou falta de vontade política? A apuração dos delitos é falha. Os bandidos agem com liberdade total, e raramente são encontrados e presos. Falta de equipamento, falta de cursos de formação de peritos?

 

PARA não encompridar o assunto, um fato. No final de abril, um senhor estava em seu carro no caminho de casa. Ele é operário, conseguiu com sacrifício comprar o seu carango. Quando passava diante do supermercado Verde Mar, no Jardim Canadá, um bairro de Nova Lima sem policiamento, entregue aos marginais, especialmente à noite, seu celular tocou. Obediente às normas do trânsito, encostou o carro para atender a chamada. Um outro carro, que certamente o seguia, parou ao lado. Dentro, três homens. Dois deles saltam, com armas nas mãos, apontadas para o motorista do carro estacionado, obrigam-no a sair do veículo, um dos bandidos toma suas chaves e seu celular, assumem a direção e saem em disparada no sentido de Belo Horizonte, com a cobertura do outro carro.

 

A POLÍCIA da barreira da BR-040, perto da entrada do Retiro das Pedras, foi acionada pela vítima, aconselhando-a a ir apresentar queixa em Belo Horizonte. Foi o que ele fez.

 

DOIS dias depois, comunicaram-lhe que seu veículo fora encontrado no bairro Olhos D’água, que fica no lado direito da 040, sentido BH-Rio, também no despoliciado e abandonado município de Nova Lima, junto de clubes - Serra Del Rey, Campestre - e de condomínios que têm estrada de acesso do lado oposto. Com a ajuda de parentes e amigos, ele foi até o local indicado, um buraco cercado de mato. Lá no fundo, do carro comprado com tanto sacrifício, e em prestações ainda a pagar, restavam, apenas, a lataria e a direção. Tudo o mais fora retirado e levado pelos bandidos, para revenda no mercado paralelo de peças - outro ramo criminoso sempre impune.

 

A INFORMAÇÃO de moradores de Olhos D’água é a de que o local se transformou, há mais de dois anos, em oficina de desmonte de carros roubados. A polícia sabe disso, e nada faz. Nem para acabar com os roubos, nem para investigar, prender e pedir à nossa justiça sempre capenga e retardada, a punição dos ladrões. Quanto às vítimas, como no caso citado o operário, nenhuma esperança de recuperar o carro perdido. Nem via seguro, que não fazem, por seu muito caro. Pois é. Este é o seu, o nosso pobre e dilapidado Brasil de todos os dias, senhores governantes, senhores parlamentares, senhores magistrados!

 

FÁBIO. P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 12h59
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DILMA É ELA E SUA CIRCUNSTÂNCIA

25/abril/2012

Encontros/desencontros internacionais e nacionais mostram que nem tudo vai tão bem como se anuncia.

 

 

JÁ disse, e repito, que acredito nas boas intenções da atual presidente Dilma Roussef. Ela deseja acertar, tomar medidas corretas, melhorar as condições de vida da população em geral. Apesar do tom autoritário que adota, apesar da postura algo arrogante, apesar do vício doutrinário que ela nunca perde, trazido da sua juventude marxista/revolucionária, ela desperta simpatia, especialmente quando ataca a corrupção.

 

MAS DILMA, como todos nós, é ela e sua circunstância. E sua circunstância sofre a influência de seu mentor maior, o ex-presidente Lula da Silva. Que nem sempre, ou quase nunca, defende a posição mais palatável, mais sensata, mais civilizada. Veja-se o caso atual, o do escândalo que envolve um senador e um rei da jogatina ilegal. Lula estava de um lado, Dilma de outro. Parece que ela venceu. Além de Lula, especialmente na política externa, a presidente/a, como ela prefere, tem seguido com muita insistência os conselhos do seu assessor para assuntos internacionais, o sr. Marco Aurélio. Quem conduz os posicionamentos do Brasil na política externa é ele, não o ministro do Exterior, que tem mostrado apenas ser um "patriota" bem mandado.

 

TODOS sabem, não pela cobertura oficial da viagem de Dilma à Alemanha, que ela teria sido contestada, de forma franca e direta, pela chanceler alemã Angela Merkel, quando criticava os investimentos de empresas germânicas no Brasil. Merkel rebateu rápido: nós, na Alemanha, não controlamos as aplicações feitas por empresas privadas. Não é da nossa conta. Em alemão, duro, gutural, a advertência deve ter causado maior impacto ainda.

 

AGORA, na visita aos Estados Unidos, quem acompanhou a cobertura do encontro de Dilma com o presidente Barack Obama, deve ter percebido o ar de espanto dele, quando Dilma criticava o comportamento dos empresários dos Estados Unidos, quando aplicam seus recursos no nosso país, inundando de dólares, segundo ela, a nossa economia. Obama ouvia atento a tradução da fala da presidente brasileira. Quando ela fez a crítica aos investidores norte-americanos, ergueu a sobrancelha, ajeitou-se na cadeira, e ficou olhando no vazio. Não respondeu, nem comentou.

 

TALVEZ pelos posicionamentos anti-americanos do governo brasileiro, desde os tempos de Lula, Dilma e Barack Obama mantiveram apenas encontros formais. Não houve o tradicional banquete que o presidente dos Estados Unidos oferece na Casa Branca a chefes de Estado. Correspondentes de jornais que acompanhavam a visita desconfiaram que o banquete não foi realizado porque o presidente dos Estados Unidos não gostaria de ter em sua mesa a presença do assessor internacional da presidente, que tem sempre se manifestado contra as posições adotadas pelo governo de Washington, e que é considerado, por isso, inimigo do seu governo e do seu país. São, obviamente, suposições e conversas em off. Mas que o caso do banquete não realizado foi estranho, foi.

 

PARA culminar o festival de desencontros internacionais, registre-se o fracasso da 6ª Cúpula das Américas, em Cartagena, Colômbia. O encontro/desencontro resultou em nada, em zero, nem declaração final teve. Não se chegou a lugar nenhum, conforme os que acompanharam a Cúpula, em virtude da posição de intransigência de alguns países, entre eles o Brasil, diante de temas delicados e controvertidos, como a inclusão de Cuba na lista dos participantes do próximo encontro. Por ser ainda uma ditadura, a ilha dos irmãos Castro não preenche a condição considerada básica para o convite, isto é, o país convidado deve adotar o sistema democrático de governo. E mais, o mesmo grupo de países, Brasil incluído, defendia apoio à proposta apresentada pela presidente Cristina Kirchner no sentido de que as ilhas britânicas Falklands/Malvinas sejam incorporadas à soberania argentina. A proposta foi rejeitada.

 

COMO se vê, mesmo sem a presença do venezuelano Hugo Chávez, que seria outro elemento perturbador, o encontro dos países americanos na Colômbia demonstrou o quanto é difícil harmonizar interesses e reivindicações tão díspares de países tão diferentes.

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 12h33
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PORQUE TANTOS QUEREM IR MORAR EM MIAMI

19/abril/2012

 

Impunidade, escândalos, cachoeiras, mensalões, custo de vida.  Os incentivos para o êxodo são vários.

 

 

É CRESCENTE o número de pessoas que desejam sair do Brasil, para morar em outro país. A Flórida norte-americana está lá, nas Miami da vida invadida por brasileiros bem municiados de dólares, para confirmar. Os corretores de imóveis, hoje chamados de "consultores financeiros", já estão instalando em suas firmas departamentos especializados em transações no exterior.

 

POR que isso acontece?  Basta abrir os jornais ou ligar as TVs nos noticiários. Todos os veículos de comunicação, mesmo os que preferem dourar as pílulas amargas dos nossos problemas e dissabores quotidianos, mostram a crua e dura realidade tupiniquim. Que não está para brincadeira. Na Flórida, recanto preferido por aposentados abonados, o conforto é total nos condomínios residenciais (quem tem um mínimo de bom gosto e de civilização prefere viver em casas, não em pombais, como os novo-ricos brasileiros). Lá, em Miami e seus arredores, a vida é calma, o trânsito é organizado, a violência é mínima, se há corruptos, eles são punidos. Não é uma atração total?

 

PARA uma pequena amostra das razões da fuga de brasileiros para outros países, disse que basta acompanhar as notícias do dia na imprensa escrita, falada, televisada. Adiante, algumas das manchetes e chamadas de capa dos principais jornais do país: "Empresa abastecida por Cachoeira faz doação para governador tucano"; "CPI: Lula e Sarney orientam blindagem (para proteger governo Dilma)"; "Outro governador na agenda de Cachoeira: o de Tocantins"; "Rede abastecida pela Delta fez doações eleitorais"; "Em Minas, TCE vê sobrepreço em obra do Pac - Delta está no consórcio, diferença chega a 350%"; "MP abre inquérito para investigar Delta em BH"; "Promotores avaliam suspeita de sobrepreço de 350% em obra do BRT"; "Deltaduto financiou campanhas eleitorais"; "Justiça vê jeitinho em contratação da Delta"; "Processo contra Cachoeira ficou cinco anos, de 2005 a 2010, parado na gaveta do ministro César Peluso, do STF"; "Taxistas movidos a álcool"; "Lei antiga beneficia maníaco do Anchieta"; "Duas mulheres acusam médico de abuso sexual"; "PSB amansa PT com cargos na Prefeitura de BH"; "45 ambulâncias apodrecem na Pampulha"; "Magistrado é denunciado por venda de habeas-corpus"; "Estatal contrata namorada de ex-ministro (o ex-ministro é Franklin Martins e sua namorada, que ganhou da EBC contrato de R$ 2,39 milhões, é amiga da namorada de José Dirceu, também ex-ministro do governo Lula); "Governo reduz pela metade dose de remédio de distribuição gratuita"; "Superintendente do Incra no DF é afastado sob suspeita de favorecer contraventor"; "Policiais de Juiz de Fora recebiam propina de R$ 15 mil". "Julgamento do mensalão pelo STF corre risco de não se realizar, com prescrição das penas dos envolvidos".

 

CHEGA? O que está reproduzido no tópico anterior foi publicado nos jornais de hoje, dia 19, e de ontem, dia 18. Para os que estão por fora, Cachoeira, Carlos Cachoeira, é o rei da jogatina, goiano, amigo e protegido do senador Demóstenes Torres, dono de dezenas de empresas, com ramificações em vários estados, inclusive em Minas. Delta, ligada a Carlos Cachoeira, é uma empresa construtora que fatura milhões em obras públicas. Seu presidente é aquele que disse: "Com 30 milhões na mão eu consigo qualquer contrato". A Delta ganhou a duplicação da avenida Pedro I e pode ganhar outros. As prefeituras de Juiz de Fora e do Rio de Janeiro, cancelaram todos os contratos com a empreiteira, como medida preventiva.

 

O ÊXODO de brasileiros para o exterior tem razões e justificativas que todos percebem. As mencionadas são apenas algumas. Entre elas, o custo de vida. Em Miami compra-se uma casa de luxo, em condomínio idem, pela metade do preço de um apartamento na zona sul de Belo Horizonte. O custo de vida é menor. A energia, a gasolina, os seguros, o vestuário, o preço dos carros, a alimentação, o lazer e os impostos são itens que pesam menos no bolso de quem vive na Flórida em relação a quem reside no Brasil. Isso sem falar na assistência médica, que é perfeita e a segurança também.

O JEITO de escapar de tanto estresse, é lamentável a constatação, é ir embora. Para os condomínios amenos de Miami. Boa viagem...

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 16h04
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UMA CACHOEIRA PARA AFOGAR O MENSALÃO

12/abril/2012

 

Presidente do PT revela o plano idealizado por Lula: usar a CPI do Demóstenes Torres para desmontar o processo do Mensalão que está para ser julgado no Supremo.

 

A CACHOEIRA goiana é muito maior em volume de água de esgoto do que a água pura, cristalina, da gaucha Iguaçu. É um verdadeiro tsunami que ameaça derrubar telhados de vidro e casas de lama de um bando, a expressão é esta mesmo, de políticos (sic).

A CACHOEIRA do tal Carlinhos, magnata dos jogos proibidos, revelou como a hipocrisia faz sucesso na vida pública. O principal envolvido nos escândalos que estão sendo revelados em fitas gravadas, o senador Demóstenes Torres, era tido e havido como paladino da moralidade. Ele cansou o microfone do Senado, e os ouvidos dos senadores e dos que acompanham a TV Senado, com seus discursos de condenação dos corruptos, de combate às maracutaias com dinheiro público. Ao cabo e ao final, viu-se que tudo era apenas encenação para enganar os bobos, os que acreditam ainda na honradez e na sinceridade de todos os que elegemos para nos representar no Parlamento e nos cargos executivos. Demóstenes não sabia que suas tramoias telefônicas com o rei da jogatina ilegal estavam sendo ouvidas e gravadas por decisão judicial.

 

DESMASCARADO, não teve outra saída a não ser pedir desfiliação de seu partido, o DEM, que iria expulsá-lo. E contratar advogados famosos e onerosos para evitar sua condenação no juízo criminal.

OS respingos da água podre da cachoeira goiana (pobre Goiás!), começaram a atingir os que estavam ou estiveram perto da dupla Carlinhos-Demóstenes. Os petistas, até então fora da confusão, comemoravam. Os primeiros envolvidos pertenciam a partidos adversários da outra dupla famosa, Lula/Dilma. Para alegria maior dos governistas, o envolvimento atingia nomes de prestígio no PSDB, como o do governador de Goiás, Marconi Perillo. Mas logo se constatou que petistas e coligados do PT estariam também envolvidos no lamaçal, melhor, no cachoeiral, se me permitem o neologismo.

 

A CRIAÇÃO de uma CPI no Congresso, para apurar as denúncias, obteve de forma surpreendente o apoio da maioria dos senadores e deputados, e contou com a simpatia, digamos assim, do governo de Dilma. Seria um sinal, bom sinal, de que finalmente a faxina para eliminar os setores podres da vida pública brasileira seria realizada de forma ampla e irrestrita. Uma CPI “sem limites”, como queria o desavisado PSDB. Beleza.

 

MAIS uma vez, a hipocrisia decepciona os crédulos, que ainda existem. Sabe-se agora, e pela voz autorizada do próprio presidente do PT, sr. Rui Falcão, que a CPI do Demóstenes/Cachoeira, por orientação do ex-presidente Lula da Silva, teria um objetivo menos digno: “Desmascarar os autores da farsa do mensalão”. Que, segundo Lula, Falcão & Cia., seriam o PSDB e o DEM.

 

O PRESIDENTE do PT não escondeu o propósito dos governistas: “A CPI vai desvendar todo o esquema montado por esses criminosos, falsos moralistas que se diziam defensores da moral e dos bons costumes”. E cita, como um deles, o governador Marconi Perillo, do PSDB de Goiás. O mesmo Marconi Perillo que revelou, na época, ter advertido o então presidente Lula sobre a compra, feita por seus correligionários, de apoio político no Congresso para os projetos do seu governo. A operação criminosa foi batizada pelo deputado Roberto Jefferson, que a tornou pública, de “mensalão”, pois o apoio era comprado e pago mensalmente. Lula, que logicamente sabia de tudo, não gostou da revelação que lhe foi levada por Perillo e o colocou na sua lista negra. Com o escândalo do cachoeiral, deve ter pensado: "Chegou a hora de dar o troco". Mesmo sabendo, pelo que os jornais noticiam, que o apurado até agora atinge Perillo apenas de raspão. Por enquanto, acrescento, precavido que sou.

 

ENTÃO, é isso aí. O PT, Lula, Dilma, Falcão, querem a CPI, mas com a finalidade de “desmascarar” os que denunciaram o “mensalão”. Diga-se, por oportuno, que o processo contra os petistas envolvidos está para ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal. A Oposição, tão incompetente como tem se mostrado, acabará cedendo o palco para o cenário que Lula e seus seguidores querem montar. Aliás, ainda por oportuno, vale a pergunta: o “mensalão” federal está na pauta do Supremo, e o “mensalão” mineiro, que preparou o caminho para o do PT? O ministro-relator é o mesmo nos dois processos.  Então…

 

 

Fábio P. Doyle

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista  



Escrito por Fábio Proença Doyle às 13h57
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HISTÓRIA DE ESPIGÕES DE ONTEM E DE HOJE

3/abril/2012

 

O prefeito Sérgio Ferrara foi crucificado por ter liberado aos pombais de concreto parte do Belvedere. Ele poderia exclamar, com razão: "Por que apenas eu?

 

POBRE Sérgio Ferrara. Tão criticado, tão atacado, tão massacrado por ter, como prefeito, autorizado a construção de monstros de cimento armado, de espigões, de pombais, numa parte do Belvedere, então bairro de residências unifamiliares. Ferrara, condenado sem direito a defesa, por uma decisão que todos reprovam, poderia, hoje, exclamar em altos brados: "Por que eu apenas?"

BELO HORIZONTE, graças à omissão ou conivência de tantos prefeitos que vieram depois dele, transformou-se em um imenso Belvedere. Pombais invadiram todos os bairros, todos os recantos, aprovados nos facilitários municipais, insensíveis ao dano causado à paisagem da antiga "cidade jardim", insensíveis aos problemas viários que o excesso de veículos, decorrente do excesso de metros quadrados construídos, provoca por toda parte. Invasão que acontece da mesma forma, e provocando os mesmos danos, em toda a região metropolitana.

 

AGORA, o alvo é a Pampulha. Os que sabem faturar milhões, ou bilhões, construindo espigões e pombais, já não encontram espaços disponíveis no mapa da cidade. E colocaram na alça de mira a até então preservada Pampulha, implantada pelo ex-prefeito Octacílio Negrão de Lima, que fez a represa e criou o lago, e modernizada e internacionalizada por outro ex-prefeito, Juscelino Kubitschek, que contou com a ajuda de dois gênios, Niemeyer e Burle Max.

 

PARECE inacreditável, mas os dois primeiros monstros de concreto, dois hotéis, a serem erguidos na região, já tiveram seus projetos aprovados, inclusive com, declarações entusiasmadas do atual prefeito Márcio Lacerda. É o começo da invasão.

 

E PARA espanto maior, quando a comunidade que será afetada pela obra iria discutir o assunto, numa audiência pública na Câmara Municipal, três ilustres vereadores conseguiram desmarcar a audiência. Sob a alegação estapafúrdia de que a Comissão de Meio Ambiente e Política Urbana da Câmara Municipal poderia realizar a reunião com qualquer número de presentes, e apenas os três estavam lá, decidiram adiar por tempo indeterminado o encontro marcado.

 

PARA registro: um dos vereadores, eleito com o voto da população, disse, com todas as letras, que "a audiência programada seria só mais uma manifestação popular, que não levaria a resultado algum". Êta povo bobo, que só serve para votar nos mesmos de sempre.

 

NO mesmo dia, com o caminho livre, o Conselho Municipal de Política Urbana, chamado de Compur, aprovou a ata que autorizava a construção dos dois hotéis.

 

FERRARA está vingado. Os que o sucederam, fizeram pior do que o Belvedere. E me lembro de uma atitude elogiável do ex-prefeito Sérgio Ferrara. Havia no alto do bairro Santo Agostinho um quarteirão densamente arborizado, com árvores de mais de 100 anos, que pertencera ao Sanatório Belo Horizonte, da família Lodi. Desativado o Sanatório, o terreno, que havia sido cedido pelo Estado pelo regime de comodato, depois transformado em doação definitiva aos donos da instituição, foi vendido a um empresário muito rico, o sr. Benzion Levy. Que pretendia, e seria natural, ganhar mais dinheiro vendendo os lotes do quarteirão. Acontece que a área estava classificada pela Prefeitura como de "uso especial", destinada a instalação de um parque (aliás, era chamado de Parque de Santo Agostinho), ou de uma praça, ou de uma escola, ou de um hospital, preservada a vegetação. Nada de espigões.

 

PARA liberar a área, ou parte dela, retirando sua classificação de "uso especial", medida que só o prefeito poderia promover, o dono do quarteirão tentou o apoio de Ferrara. Estávamos no final de seu mandato. O prefeito, um homem público simpático, aberto, democrata, agiu como governante consciente. Respondeu que só acolheria a pretensão se os moradores do entorno do Parque de Santo Agostinho, através de sua Associação, concordassem. Procurados, representantes da Associação de Moradores não aceitaram a mudança. Há alguns detalhes no caso que seria melhor não mencionar (não é, Maria Emília?). O pedido foi arquivado.

 

MAS a história se repetiu com o sucessor do sucessor de Sérgio Ferrara (o primeiro sucessor renunciou para candidatar-se a governador, foi derrotado, sendo substituído pelo seu vice - permitam-me omitir nomes). E se repetiu exatamente, como no caso anterior, no final de sua gestão. Sem consultar ninguém, muito pelo contrário, em segredo, a Prefeitura aprovou o pedido de Benzion Levy, liberando metade do quarteirão. O Parque ficou reduzido a 50% do que era. Nos outros 50% foram erguidos dois edifícios enormes, de luxo.

 

É ASSIM, diriam os adeptos da mais valia aética, que caminha a nossa pobre, poluída e deteriorada cidade, ops!, humanidade...

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 17h59
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O FURO FRUSTRADO NO 31 DE MARÇO

28/março/2012

O redator-chefe do "Diário da Tarde", ao sair de casa às 6 horas da manhã, constatou e confirmou que tropas do Exército estavam sendo transportadas para o Rio. Era o sinal de que o movimento contra Jango havia começado em Minas. Ele fez o noticiário e a manchete com o fato. Mas o que seria um "furo" histórico foi retirado da edição.

VEM aí o polêmico 31 de março. O dia do "golpe" dos militares, segundo os que se situam na esquerda, salvo seja, ou do "contra-golpe" dos militares, conforme defendem os que acreditavam, e tinham razões na época para isso, que Jango e sua troupe, estariam preparando o fim do regime democrático, com a transformação do Brasil em uma republica castrista, nos moldes cubanos de Fidel.

MINAS, "tinha que ser Minas", deu a partida para o "contra-golpe". E com o apoio das mais expressivas vozes democráticas do Estado e do País, tais como Milton Campos, Pedro Aleixo, Magalhães Pinto, Clóvis Salgado, José Maria Alkmin, Osvaldo Pierucetti, a maioria absoluta dos deputados estaduais e federais, dos meios acadêmicos, da imprensa. Mas até hoje, discute-se se foi "golpe", ou "contra-golpe".

DE minha parte, aquele dia marca um feito negativo de minha vida jornalística. E não por minha culpa. Já contei isso antes, não sei quando, nem onde. Mas não canso repetir, pelo aspecto pitoresco e inusitado.

TODOS esperavam uma reação das forças chamadas de democráticas ante os arroubos nitidamente golpistas do grupo janguista, que assumiu o poder em Brasília em virtude da maluquice explícita do ex-presidente Jânio Quadros, ao renunciar, na esperança de que o povo iria exigir sua permanência no poder. Esperança frustrada. João Goulart assumiu, e colocou suas preferências ideológicas, mais de seus amigos do que dele própria, em atividade. A história é conhecida, ocioso seria recontá-la.

O DIA era o 31 de março de 1964. De manhã, bem cedo, lá pelas 6 horas da "madrugada", eu saia de casa, lá no alto do bairro de Santo Agostinho, como era minha rotina, para comandar o fechamento do jornal, o valente e independente "Diário da Tarde", que circulava, na época, ao meio-dia, como um bom vespertino que era. Ao pegar meu carro, na rua Ouro Preto, percebi um movimento inusitado na avenida do Contorno, que faz esquina com o meu quarteirão. Caminhões subiam a avenida, um atrás do outro, cheios de soldados. Estranhei, pois nenhuma manobra estava prevista, ao que sabia. Como repórter atento, fiz a volta no quarteirão, para ver de onde saiam os caminhões com a soldadesca. Fui pela avenida até a rua Juiz de Fora, de lá, acompanhando o cortejo, que seguia do outro lado, até o quartel do Exército. Do quartel saiam as chamadas "viaturas", inclusive com alguns tanques no entremeio. Perguntei a um militar, na porta do quartel, e fiquei sabendo que o destino final da tropa seria o Rio de Janeiro. Voltei, e constatei que as os caminhões e tanques estavam indo no sentido da BR-040, que liga BH ao Rio.

 NÃO precisaria ser um Sherlock Holmes do velho antepassado Conan Doyle, para ligar um fato a outro. As tropas de Minas, como já se poderia prever em face dos acontecimentos anteriores, partiam para a "guerra". Que, felizmente, não aconteceu. Os líderes chamados de revolucionários mineiros conseguiram a adesão das forças militares e civis do Rio, de São Paulo, e acabaram por dominar Brasília, com a fuga de Jango e de seu grupo para o Rio Grande do Sul, na tentativa de uma resistência lá no sul, que também não aconteceu.

MAS o que me interessa, e me envolve, é que diante da constatação da partida das tropas, fui para o jornal e preparei a edição na base da manchete que redigi: "Tropas de Minas partem para o Rio". O noticiário foi elaborado no mesmo tom, pois eu confirmara, pessoalmente, o fato. Nós, na redação, comemorávamos o "furo", pois os jornais do dia registravam apenas hipóteses relacionadas com a deposição de Jango.

CUMPRIDA a minha tarefa, voltei para casa, vaidoso da repercussão nacional que o nosso DT iria alcançar, com a notícia exclusiva das forças do Exército já em marcha, como se dizia, pela democracia.

 DEPOIS do almoço, desci para o jornal. E pude ver, no caminho, os jornaleiros vendendo a nossa edição mas sem a manchete que eu preparara. Na rua Goiás, que era a nossa sede, constatei que o noticiário havia sido suprimido, trocado por outro, se bem me lembro, com uma manchete que falava em alta de preços de alimentos, ou coisa parecida. Perplexo, fui à sala da direção, quando fiquei sabendo que o diretor gerente, que sempre ia às oficinas, determinara a troca da página, já na impressora.  Perguntei a ele, meu amigo Theódulo Pereira, uma ótima pessoa, por que havia sido feita a mudança. Disse-me que diante da gravidade da situação no país e da repercussão que nossa manchete e nosso noticiário teriam, resolveu telefonar para o presidente do grupo, João Calmon, no Rio, e que ele desmentira o fato noticiado, recomendando a troca da página.

HORAS depois, a chegada das tropas mineiras ao Rio, a adesão a elas das tropas federais naquele Estado, e as de São Paulo, era confirmada pelas agências de notícias, e à noite, pelas TVs.

COM o passar dos dias, deduzi que a informação passada para o diretor-gerente do jornal, desmentindo o que o DT publicaria, estaria relacionada com o sigilo da operação militar. O presidente do grupo participava ativamente da articulação comandada em Minas pelo governador Magalhães Pinto, com os chefes militares.

MINHA decepção, que faz parte de minha história profissional, pode ser imaginada. Perdemos um "furo" histórico. O que fazer?

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 00h17
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PROPINODUTO A CORES E AO VIVO

19/março/2012

 

Um programa de televisão mostrou a triste realidade que cerca grande parte dos processos de licitação e concorrência pública no nosso roubado país.

 

UM programa de televisão de domingo à noite serviu para lavar a alma dos que acreditam na importância da imprensa livre e independente. Ao mesmo tempo, o que foi mostrado na tela de nossas tvs agravou o stress, a melancolia, a descrença que nos atinge em cheio, a todos nós que desejamos o melhor para o nosso país e para o nosso povo, sofrido e explorado povo.

 

ESTOU falando das denúncias de corrupção que foram mostradas pelo “Fantástico” da Rede Globo, palmas para ela e para os autores da reportagem. Um trabalho jornalístico nota mil. Perfeito, completo, com a comprovação de toda a maracutaia denunciada. Quem não viu, perdeu.

 

UM repórter da emissora conseguiu da direção de um hospital do Rio de Janeiro autorização, e o imprescindível apoio logístico, para se fazer passar como chefe do seu serviço de licitações. Apenas a direção superior do hospital sabia do plano. Na sua execução, o hospital abriu concorrência emergencial, aquela que não exige prazos e burocracias maiores, para diversos serviços, como o de aluguel de ambulâncias, fornecimento de alimentação, de mão de obra, e por aí.

 

NOS dias marcados, os candidatos aos serviços em licitação compareceram para acertarem os detalhes dos negócios. E de forma descarada, se me permitem, ofereceram ao suposto funcionário do hospital propinas que giraram entre 15 e 20% do contrato a ser assinado. Com sorrisos, alguns com mais do que sorrisos, diziam ao repórter, sem saber que tudo estava sendo filmado e gravado, que o pagamento de propinas é prática habitual, um deles afirmou que “esta é a ética do mercado”…

 

FORAM quatro as empresas que se envolveram na enrascada. Todas com ficha de fornecedoras habituais de órgãos ligados ao governo federal, ao estadual e municipal do Rio de Janeiro. Apenas em 2011, as quatro receberam, através de licitações certamente fajutas, mais de R$ 170 milhões. O que deve ter gerado mais de R$ 30 milhões em propinas embolsadas por servidores públicos.

 

NA segunda-feira, depois do programa do “Fantástico”, os governos federal, estadual e municipal do Rio, resolveram fechar as comportas do propinoduto para as quatro empresas: todos os contratos firmados com elas foram bloqueados. Logicamente, contratos já antigos, pois os mostrados no programa de tv não eram para valer.

 

O QUE se lamenta é que a amostragem da corrupção deslavada ficou apenas em quatro empresas do Rio de Janeiro. Se fosse feita em todos os contratos firmados, e em todos os estados e municípios brasileiros, a situação seria ainda mais grave. Como disse um dos envolvidos no escândalo, filmado e gravado pela câmeras da TV Globo, é assim que funciona o mercado, é assim que se faz licitação, concorrência pública, é desta forma que a coisa funciona: “Eu protejo o fornecedor, o fornecedor me protege”… E todos se enriquecem com o nosso suado dinheiro, pois os recursos desviados para as contas dos que recebem propinas e dos que pagam as propinas sai exatamente dos impostos e taxas que todos nós somos obrigados a pagar à União, aos Estados e aos Municípios.

 

É EVIDENTE que há licitações e concorrências sérias, honestas. Gostaria de poder afirmar que as sérias e honestas são a maioria. Mas que tal ampliar o teste do “Fantástico” para outras cidades deste país tão afetado por tantos casos de corrupção varridos para debaixo dos tapetes palacianos?

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista    



Escrito por Fábio Proença Doyle às 00h38
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VAMOS OLHAR A CIDADE COM OLHOS ESTRANGEIROS

14/março/2012

 

 

A rotina do dia a dia nos faz ignorar os muitos problemas urbanos de nossa cidade. Os estrangeiros, francos e sinceros, nos mostram a realidade.

 

NOSSA cidade está em boas condições de abrigar tantos milhões de habitantes e de acolher milhares de visitantes que aqui chegam todos os meses?

 

A PERGUNTA tem razão de ser. Nós, que aqui vivemos, nos habituamos com as ruas sujas, com as casas e prédios nem sempre bem cuidados, com os monstros de concreto que se erguem em todos os bairros, com as pessoas cansadas e pouco educadas, com os veículos em excesso de velocidade, com os engarrafamentos, com a impureza do ar, com a poluição de todos os tipos. Saímos de nossas casas de manhã, de carro, ou pegamos um ônibus sempre superlotado e imundo. Alguns poucos usam um transporte sobre os trilhos que chamamos indevidamente de "metrô", que não é nada mais do que uma ferrovia urbana de superfície, mesmo assim limitada a poucos quilômetros e a poucos lugares para os que dele precisam para locomover-se.  Saimos, e a repetição do panorama e dos nossos movimentos deixa-nos, quase sempre, desatentos a detalhes. Chegamos ao nosso destino, trabalhamos, fazemos as compras que devem ser feitas, e voltamos para casa da mesma forma, desatentos aos detalhes. Já nos acostumamos com tudo, o que é bom e o que é ruim.

 

POR isso, espantei-me, há tempos, com a franqueza de um senhor francês, aliás, nascido na Argélia, mas francês para todos os efeitos, que veio nos visitar. Fui esperá-lo em Confins. Na volta, quando passávamos pela avenida Cristiano Machado, para puxar conversa, indaguei sobre sua primeira impressão da cidade que ele ainda não conhecia. Franco, como convém a um senhor civilizado, e direto, como um bom francês, respondeu de pronto: "Afrique noir". Olhei em torno, e percebi que ele, embora pudesse ter sido menos cruel, tinha razão. O entorno da área que estávamos cruzando lembrava muito bem os bairros mais pobres da chamada "'África Negra".

 

DEPOIS disso, dei muitas voltas com ele, com o objetivo de amenizar sua primeira impressão. Ele elogiou algumas praças, e disse que se algum dia viesse morar aqui, escolheria o Condomínio do Morro do Chapéu para viver, e para jogar o seu golfe. "'É o mais aproximado que vi do que de melhor existe nos bairros residenciais europeus", comentou.

 

OUTRO estrangeiro muito meu amigo, londrino, que tinha seu pequeno castelo nas proximidades de Londres, um lugar agradavelmente chamado de "Seven Oaks", vinha sempre a Belo Horizonte, aproveitando suas viagens de negócios ao Rio e a São Paulo. Uma amizade de mais de 50 anos, cultivada em suas rápidas passagens por nossa cidade. Como todo inglês, era conservador: hospedava-se no mesmo hotel, o Del Rey, que já não existe mais, na praça Afonso Arinos. Seu roteiro era sempre o mesmo. Com um motorista de táxi que já o conhecia há muito, ia de manhã cedo ao Mercado Central, para comprar queijo mineiro, doces de nossa terra, e carne seca, para levar para a sua Seven Oaks. No fim da tarde, no mesmo táxi, vinha ao jornal na Getúlio Vargas, (quando estávamos na rua Goiás, não precisava do táxi), sempre trazendo uma caixa de bombons ingleses para a Rosana e para a filha dela, Juliana. Do jornal, saíamos para comer um cordeiro assado, sempre no mesmo restaurante, o Dona Derna, sempre na mesma mesa (uma vez chegamos lá e a mesa estava ocupada, e percebi que ele não ficou satisfeito...), servidos pelo mesmo garçon, tomando o mesmo vinho tinto.

 

FIZ-LHE, um dia, a mesma pergunta. Mais diplomata, elogiou as montanhas, a Serra do Curral (que está sendo engolida pelos incorporadores insensíveis, ajudados por prefeitos omissos ou coniventes). Mas reclamou da falta de respeito no trânsito, e do barulho em geral. Uma noite, jantávamos tranquilos, quando chegaram dois casais que ocuparam uma mesa próxima. Os quatro falavam muito alto, gesticulando muito. Meu amigo, olhou para eles e me perguntou no inglês mais britânico possível: "Eles estão brigando?" Chamou o maitre e pediu para que nossa mesa fosse trocada por outra, mais longe.

 

E VOLTO ao início: nós, já acostumados, não reparamos mais nos detalhes ruidosos de nossos restaurantes, de nossas ruas. Que tanto incomodaram  meu amigo londrino.

 

PARA encerrar, mais uma franqueza rude, mas verdadeira, de um estrangeiro amigo. Este, alemão, lá das margens tranquilas do Reno, passou uma semana entre nós, tratando de negócios. Ele mora em uma pequena cidade, perto de Bonn, e como toda cidade alemã, grande ou pequena, limpa, organizada, com poucos prédios nas áreas centrais, e com aprazíveis bairros residenciais, de casas e jardins, nas periferias.  Fui jantar com ele em um restaurante tranquilo de um clube na avenida Afonso Pena. Apenas uma mesa estava ocupada com um casal, além da nossa.  Como se pedisse desculpa, perguntou: "Não tem por aqui um lugar mais alegre e animado?". Saimos e fomos jantar em uma cervejaria alemã no Santo Agostinho. Gostou. Mas não perdi nem a chance nem o hábito, e indaguei, na volta ao hotel, qual tinha sido sua impressão de Belo Horizonte. Olhou nos meus olhos, pediu desculpas e perguntou: "Quer minha opinião franca?" E despachou: ''É uma das cidades mais sujas que já visitei. Lixo por toda parte, obras que espalham entulhos e poeira pelas ruas, jardins de praças tomados pelo mato, as pessoas jogam papéis e latas de cerveja e de refrigerantes pelas janelas dos carros. Uma imundície. O que é uma pena, pois o clima é bom à noite, quando livre da poluição.

 

COMO se vê, cabe a nós, moradores permanentes da cidade, perceber seus problemas e tentar cuidar para que eles sejam corrigidos. Difícil, não?

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 23h55
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O ZATZ EXISTE AINDA. MAS SEM HELENA

7/março/2012

 

Um périplo saudosista tenta recuperar o que o tempo e os iconoclastas destruiram

 

PERTO de minha casa tem um shopping. No shopping tem uma loja, no porão, que tira retratos para passaportes, para obter vistos dos países que os exigem. Retratos ruins, sempre, mas que são entregues ao freguês em poucos minutos. Foi o que me aconselharam fazer. Tomei um táxi, pois de outra forma não se pode chegar a lugar nenhum nas áreas mais congestionadas da nossa ex-cidade jardim. Mas, no caminho, mudei de idéia. Lembrei-me de um laboratório fotográfico que me atendia no passado, um passado já bem distante. Pedi ao motorista que me levasse a ele. Dei o nome: Zatz. O motorista espantou-se. Nunca tinha ouvido falar aquele nome. Expliquei onde era a loja, na rua Tamoios, no centro da cidade, junto do edifício Acaiaca, na esquina de Espírito Santo com Afonso Pena.

 

E PENSEI comigo mesmo: existiria, ainda, o Zatz? Como raramente passo pelo centro, que antes frequentava diariamente, não me lembrava se a pequena loja, um comprido corredor, ainda estaria lá. E estava. Paguei a corrida e entrei na loja, que me pareceu ter se afastado um pouco mais da Afonso Pena, não estava mais, como eu dela me lembrava, no térreo do Acaiaca.

 

LÁ dentro, funcionárias jovens, e bonitas, me receberam com sorrisos. Perguntei pela moça - era gerente, salvo engano - que sempre me atendera, durante mais de 30 anos. Seu nome, seria Helena? A resposta me deixou triste: a Zatz, que tem o nome de seu fundador, havia sido vendida a outro grupo exatamente na semana anterior. E Helena? - perguntei. Com a transferência da firma, ela se aposentou. O que fazer? Paguei o preço que me foi cobrado, e enquanto aguardava a entrega das fotos resolvi dar uma volta por perto. Entrei no saguão do Acaiaca. Procurei, e não achei, lá no fundo, a entrada do cinema de antigamente. Um senhor magro, responsável certamente pelo prédio, confirmou: o Cine Acaiaca não existe mais, acabou, seu espaço foi ocupado por uma igreja evangélica. E a boite, o restaurante, na sobreloja? O senhor magro volta a informar: não existem mais. Diante de meu espanto, pergunta se sou carioca. Sem ouvir a resposta, elogia o Rio, e conta que vai sempre lá, disputar maratonas. "Sou maratonista", esclarece com orgulho.

 

AGRADEÇO e caminho para a Espírito Santo. Desço o quarteirão, passo em frente do Banco do Brasil, que ainda está lá. Mas do outro lado não vejo mais, trocou o centro pelo bairro Lourdes, o Tip-Top, que pertencia a alemães, embora o nome norte-americano, que significa "o melhor", onde se podia tomar refrescos preparados na hora e os bons chopes dos fins de tarde. Subi a Carijós, vi os tapumes que cercam o que foi o Cine Brasil, parece que vai ser mais uma igreja evangélica, custei a ver a entrada que levava ao Brasil Palace Hotel - existe ainda? O Café Pérola, na esquina da Afonso Pena, resiste ao tempo, e com muitos fregueses. Entrei no velho Nice, do Caldeira, amigo de Juscelino, que o frequentava, mesmo quando prefeito, governador e presidente. Sua foto está lá na parede. E me lembrei do Augusto Rocha, o bom e velho amigo Carioca, que era também frequentador e que sempre mencionava os velhos e cansados fregueses do melhor cafezinho da cidade.

 

NA volta ao Zatz, passei em frente do que era o Banco Moreira Sales, do meu amigo Thales Assis das Chagas, depois diante da Guanabara, hoje uma imensa loja da Vivo, empresa telefônica de celulares.

 

PEGUEI as duas fotos, atravessei para o outro lado da Afonso Pena, pouco adiante do Normandy, que já não é mais do meu amigo Aziz Abras Júnior, em cujo restaurante jantava aos domingos, servido com a elegância do maitre Vicente, depois de fechar a edição das segundas-feiras do "Diário da Tarde". E foi num dos domingos, quando jantava lá, que Vicente me deu a notícia do desastre que matou Juscelino Kubitschek, o que me fez voltar ao jornal, parar as máquinas da oficina e mudar a capa principal e muitas páginas internas, com a cobertura que fiz, com a ajuda de companheiros que convoquei. A edição que foi às ruas com a triste notícia bateu todos os recordes de venda em Minas Gerais, superando 100 mil exemplares, na época um feito notável.

 

VOLTO ao itinerário saudosista. Olhei as horas, como sempre fiz, no relógio da Igreja de São José, lá no alto da escadaria, mas não vi o dono do Foto-Instantâneo tirando retratos dos passantes. Logo adiante da Chapelaria Londres, que por falta de cabeças para chapéu deixou de existir há muitos anos, lembrei-me de meu britânico amigo H.G. Walter, um nome digno de um grande escritor, que era o cônsul inglês em Minas e diretor da Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa, que ele fundou e que existe até hoje.  Harold Walter não estava no posto que gostava de ocupar em frente da entrada do Edifício Guimarães, onde funcionavam o consulado e a Cultura Inglesa, vendo a cidade passar pela Afonso Pena, tendo sempre ao lado o jornalista, escritor e imortal Moacir Andrade. Tampouco encontrei as meninas da Sloper, a loja famosa acabou, fechou, nem as do Colégio Santa Maria, e as do Imaculada, no footing da avenida. No lugar delas, apenas pessoas apressadas, suadas, cansadas. 

 

COMO a Sloper, também, o Giácomo, o que vendia a sorte grande na esquina da avenida com rua da Bahia, deixou de existir. E com ele, seus bilhetes de loteria e seus engraxates italianos. Na Bahia também já não existe mais o Trianon, do Caldelas, com seu chope e sua empadinha de camarão, como nunca ninguém conseguiu fazer igual. Por falar no Caldelas, lembro-me de suas filhas lindas. Subo Bahia, passo diante do prédio que foi Casa da Lente, do Barão von Tiesenhausen, depois reduto cultural de Edson e dos irmãos Moreira, com a Livraria e Editora Itatiaia. Recuso-me, para evitar maiores emoções, entrar na Goiás, de tantas boas recordações que envolvem o "Estado de Minas", o "Diário da Tarde" e a Procuradoria da Prefeitura, onde construi minha vida profissional. Impossível não me lembrar de Beatriz Mascarenhas, a alma e a mola-mestra da área jurídica da Prefeitura. Continuo a subir Bahia, passo diante do edifício Andrade Campos, do velho e simpático engenheiro Osvaldo Andrade, onde montei meu segundo escritório de advocacia - o primeiro, logo depois de formado, foi no já citado Acaiaca.

 

DEPOIS de cruzar Augusto de Lima, vejo de um lado o edifício Maleta, que está lá firme, do outro lado da rua, o prédio da antiga Câmara Municipal, em cujo andar térreo funcionava a Biblioteca Municipal, que frequentei muito jovem e que, mais tarde, foi a casa de trabalho de meu amigo e colega de Faculdade Estélio Orlando Donagemma. Logo adiante, não vejo Maria, uma menina bonita que um dia voltou para Passos. Na esquina da Álvares Cabral, bem conservado, o prédio que abrigou o Clube Belo Horizonte de tantas festas. No quarteirão seguinte, diante do 1341, recomponho na memória sofrida o pedaço mais importante daqueles bons, alegres e felizes tempos que não voltam mais.

 

O PÉRIPLO nos leva, depois da Timbiras, a constatar o estado de abandono, de desleixo da sede da Associação Mineira de Imprensa, que já foi "Casa de Cultura", com direito a teatro de bolso, galeria de arte e a um coral formado pelo maestro Luiz Aguiar, que reencontrei há dias, com os mesmos longos cabelos louros, agora já não tão longos, e a mesma disposição dos nossos tempos idos e bem vividos. Ao lado, a velha casa que foi do professor Borges da Costa, cuidada com carinho por Marília, Carmen e Adão, reformada e ampliada com um moderno teatro-auditório pelo bom gosto de mestre Vivaldi Moreira, sede da Academia Mineira de Letras. Naquela tarde do périplo saudosista, tomada por jovens que queriam conhecer e conversar com o escritor e cronista Luiz Veríssimo. Era o nosso destino final.

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista 



Escrito por Fábio Proença Doyle às 00h32
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HEUSER, O BOM SAMARITANO

1/março/2012

 

Ele dedicou sua vida à Medicina, ao próximo, aos enfermos, por mais de 70 anos. Deixou o registro de 30 mil pacientes.

 

HEUSER Aleixo herdou de seu pai, o professor Antônio Aleixo, o amor à Medicina, a dedicação aos enfermos, a busca permanente de novas conquistas da ciência médica capazes de curar ou minorar os problemas que afetam a saúde do pobre ser humano. Ele foi médico 24 horas por dia, durante mais de sete décadas seguidas. Heuser morreu na semana passada, aos 95 anos. Trabalhou normalmente até pouco tempo.  Passava pela avenida Afonso Pena, descia a Tupinambás, e entrava em seu consultório, repetindo uma liturgia que somente foi interrompida há alguns meses, quando uma pneumonia o levou para o hospital, e de lá, para a vida eterna.

 

COMO médico, como filho de Antonio Aleixo, Heuser somente praticou o bem, no exercício de sua profissão e no árduo exercício de viver. Era um homem extremamente bom. Recebia a todos, pobres ou ricos, com o mesmo sorriso tranquilo, com a mesma dedicação, com o mesmo interesse. Seu arquivo registra mais de 30 mil pacientes, um recorde difícil de ser superado. E de todos os clientes se fez amigo. Ficava constrangido quando alguém indagava o preço da consulta. Mudava de assunto. Não fazia da medicina uma fonte de renda, mas uma prática permanente do bem em favor do próximo.

 

ERA um médico no melhor estilo de antigamente. O Bom Samaritano de que nos fala a Bíblia. Infelizmente, eles estão rareando. Mas existem, ainda.

 

HEUSER era filho do professor Antônio Aleixo e de d. Celme Brant Aleixo. Uma família ilustre. Antonio Aleixo era filho de José Caetano Aleixo e irmão do professor e estadista Pedro Aleixo. D. Celme era filha do professor Francisco Brant, diretor perpétuo da velha Faculdade de Direito da UFMG, catedrático de Direito Penal. O professor Antônio Aleixo, também catedrático da Escola de Medicina, era assim que ela era chamada, especializou-se em dermatologia e sifiligrafia, a mesma especialidade de seu irmão Josefino Aleixo. Heuser, seguiu-lhes os passos, na mesma especialização e na mesma dedicação e bondade para com os enfermos. A Clínica Antônio Aleixo foi mantida em pleno funcionamento por mais de 70 anos ininterruptos. Agora, permanecerá na memória dos clientes, dos amigos, dos que conheciam e admiravam o trabalho que Heuser ali desenvolveu.

 

A FAMÍLIA de Heuser era de muitos irmãos. Todos os homens já morreram. Ele foi o último. Herbert Brant Aleixo, político, Haydn Brant Aleixo, bacharel em Direito, delegado, Helton Brant Aleixo, bacharel em Direito e jornalista famoso, Hegler Brant Aleixo, que foi durante muitos anos secretário da Faculdade de Direito, Húlvio Brant Aleixo, psicólogo, piloto de aviões, Horvânio Brant Aleixo, o caçula. Nos últimos dias, já prevendo seu fim, Heuser comentou com uma de suas irmãs: "De nossa família restarão vivas as três Marias, Maria de Lourdes, Maria Auxiliadora e Maria Aparecida".

 

A CIDADE muda e se transforma a cada dia que passa. Os que a fizeram, os que ajudaram a construi-la, os que se dedicaram a dar-lhe a feição de metrópole, que se transformou, certamente contra o desejo deles, na megalópole de hoje, cheia de problemas, já partiram, quase todos. O que nos resta, e é o que eu procuro fazer, como agora, e cultuar a memória dos verdadeiros pioneiros. Como é o caso do meu bom amigo, do ameno, do dedicado dr. Heuser Brant Aleixo.

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 23h18
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A COISA ESTÁ BRABA, AIRTON

15/fevereiro/2012

 

Advogada afronta juiza, terrorista recebe tapinhas nas costas, envolvidos em mensalões continuam impunes, conselheiros éticos podem perder mandatos.

 

COMO costumava dizer, com a franqueza que o caracterizava, meu bom amigo Airton Soares, “a coisa está braba”. O bom, o honesto, o correto, o fiel Airton, que conheci no jornal e que foi peça fundamental na implantação da Associação Mineira de Imprensa, a nossa saudosa AMI, em sua sede na rua da Bahia, nos idos dos anos 60 do século passado, o grande Airton morreu na madrugada do dia 5, no “Vera Cruz”. Ele estava sendo operado, ponte safena, na tarde de sábado, dia 4, quando sofreu um AVC. Não resistiu. Levou com ele a mágoa de ter perdido sua segunda casa, a AMI, por culpa da pequeneza humana. Deixou uma família formada no melhor padrão moral que ele cultivava, a esposa Eny, os filhos Luana, Luan e Airton Júnior. Um exemplo, o bom Airton.

 

REPITO Airton: a coisa está mesmo braba. Uma advogada em lua de mel com a publicidade gratuita que ganha em São Paulo, por atuar em julgamento que atrai atenção da mídia, não respeitou a juíza que presidia o júri, e que estranhou um de seus pedidos estapafúrdios, mandando que magistrada “estude mais”. Nos bons tempos, em que o respeito imperava no Judiciário, ela seria punida. Hoje, sua reação agressiva e maleducada, é manchete nos jornais.

 

O QUE esperar, afinal, de um Judiciário que pratica o desentendimento público entre seus maiores e que pretende se situar, como dizia Milton Campos, acima das leis e dos homens, e que colabora para a impunidade? Veja-se o caso do terrorista italiano, Cesare Battisti autor de vários crimes de morte em seu país, condenado a prisão, e que hoje vive tranquilo no Brasil, para onde fugiu e conseguiu “asilo político” concedido pelo ex-presidente Lula da Silva, amparado em parecer do seu ministro da Justiça Tarso Genro. O Supremo Tribunal Federal foi acionado, mas preferiu “lavar as mãos”, deixando a decisão final para o presidente da República. Deu no que deu.

 

O CRIMINOSO refugiado nas terras de Lula ressurgiu no noticiário há dias. Ele visitou o seu protetor, o petista Tarso Genro, hoje governador do Rio Grande do Sul.  As imagens mostradas pela TV mostram Genro abraçando Baptisti. As autoridades italianas, que ainda protestam contra a decisão brasileira, devem ter ficado ainda mais revoltadas. Mas Battisti não se contentou com o abraço de Tarso Genro. Fez uma visita formal ao Congresso Nacional, para agradecer o apoio que recebeu de senadores e deputados ligados ao governo. Foi filmado, recebendo tapinhas nas costas e agrados outros dos representantes do povo brasileiro na Câmara e no Senado. Só falta, agora, uma visita sua ao Supremo. Uma vergonha, não é mesmo Boris Casoy?

 

A COISA “está braba” também no ambiente político. O sempre presente publicitário Marcos Valério, o dos mensalões, o mineiro (quando será julgado pelo Supremo?) e o nacional (dizem que será colocado na pauta do STF em março), foi condenado mais uma vez pela justiça federal em Minas Gerais. A primeira condenação foi a quatro anos, a de agora, a nove anos. Mas ele continua circulando por aí. Aliás, os seus companheiros dos mensalões mineiro e nacional, também. Reclamar, a quem, como?

 

E PARA encerrar, a bomba explodiu em Brasília. A Comissão de Ética Pública da Presidência da República, que tem na presidência o ex-ministro do Supremo José Paulo Sepúlveda Pertence (mineiro, ex-aluno da nossa gloriosa Faculdade de Direito, para honra nossa), decidiu abrir processo contra um ministro do governo Dilma, o Fernando Pimentel. Ele é acusado de prática de atos irregulares quando prefeito de Belo Horizonte (“dispensa indevida de licitação e de desvio de recursos em proveito alheio”), e de enriquecimento, mais de R$ 2 milhões, através de consultorias que não prestou, inclusive à Federação das Indústrias de Minas Gerais, nos tempos de Robson Andrade.  A informação está na mídia: a presidente Dilma Roussef não gostou da decisão da Comissão de Ética, pois queria ser “avisada” com antecedência da pauta da reunião da Comissão (o presidente Sepúlveda Pertence proibiu que a informação fosse dada), e ainda, que a Comissão estaria “extrapolando suas funções” ao tomar decisões contra seus ministros “com base em denúncias de jornais”.

 

O VELHO e bom cidadão Airton Soares não está aqui mais para comentar que “a coisa está braba”. Infelizmente, Airton, está. E pode piorar, pois Dilma, está nos jornais, irritada com a decisão da Comissão de Ética no caso Pimentel, teria decidido antecipar a troca de cinco dos sete integrantes do órgão. Descanse em paz, grande guerreiro. Mas a sua batalha, a contra os desmandos morais, continua.

 

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista



Escrito por Fábio Proença Doyle às 11h20
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SÓ FALTA AOS PETISTAS PEDIR DESCULPAS

7/fevereiro/2012

Como o mundo é redondo, dando voltas e mais voltas, não surpreende a decisão do governo Dilma em vender aeroportos. Adotaram a privatização, que tanto condenavam no governo de FHC.

 

O MUNDO é redondo. É uma bola. Uma bola que se preza, dá voltas. Muitas voltas. Espantosas voltas. Quem poderia imaginar que os petistas adotariam a política de privatização, que tanto condenavam no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso.

 

POIS os petistas acabam de privatizar três aeroportos, os de Guarulhos, de Brasília e de Campinas. E já preparam a venda de mais dois, o do Galeão, e o nosso Confins.

 

FOI uma decisão errada? Acredito que não. É assim que se faz no mundo todo, o civilizado. O poder público não tem condições de gerir aeroportos, como não teria as de comandar empresas de mineração, privatizadas por FHC. Basta analisar o estado atual dos três já vendidos. Caos absoluto. As empresas privadas que arremataram Guarulhos, Brasília e Campinas, vão ter que botar muito dinheiro para consertar os defeitos e para manter os três em bom funcionamento. Mas a decisão é surpreendente, partindo de Dilma, petista histórica, sucessora e afilhada de Luiz Inácio Lula da Silva, que tanto atacou o tucanato pelas privatizações.

 

RESTA saber quanto custará a privatização, além dos 24 bilhões e meio pagos pelos arrematantes. Guarulhos custou mais caro, um pouco mais de 16 bilhões. O de Brasília foi o segundo, sendo arrematado por quase 4 bilhões e meio. Campinas, o mais barato, quase 4 bilhões de reais.

 

É MUITO dinheiro que vai entrar nos cofres do Tesouro Nacional.  E a pergunta que fica é quanto a privatização custará para o usuário dos aeroportos.  Logicamente, quem comprou tão caro, vai querer recuperar o gasto em cima dos que são obrigados a usar os aeroportos em suas viagens. Vem chumbo grosso por aí, afetando o bolso do povão, que agora troca os ônibus pelos aeroplanos.

 

MAS o espantoso é a volta que o mundo deu, levando os petistas a adotar o recurso à privatização dos bens públicos, no melhor estilo FHC. Com isso, perderam o principal argumento de campanha eleitoral. Só lhes falta, agora, pedir desculpas.

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista 



Escrito por Fábio Proença Doyle às 23h26
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OS QUE SOBREVIVEREM RECEBERÃO?

Artigo 31.janeiro.2012

 

Aquela ação de julho de 1986 continua no ritmo moroso de sempre. Nem prazo improrrogável é obedecido.

 

O TEMA é repetitivo, cansativo, bem de acordo com o seu conteúdo: justiça morosa. Mas o registro que faço, o mais breve possível, para não tornar mais morosa e repetitiva nossa atividade de escrever e de ler, não poderia deixar de ser feito. Pelo que ele retrata, em HD, o que acontece no Judiciário brasileiro em geral, em Minas, em especial. Apesar dos bons propósitos da ministra Eliana Calmon, que luta bravamente para cumprir a missão patriótica e indispensável, entre elas a de abreviar a tramitação processual, do seu Conselho Nacional de Justiça. Que muitos, ministros inclusive, desejam transformar em mais um órgão inútil, amorfo, inodoro.

 

OS que me acompanham ao longo de tantos anos, na imprensa de antigamente e no blog dos tempos modernos, devem se lembrar do que escrevi aqui, em 30 de novembro de 2010. O título que dei ao artigo foi exatamente "Justiça Morosa é Justiça Injusta". Contei, naquele artigo, a melancólica história de uma ação ordinária, proposta por servidores públicos, em julho de 1986, reclamando da Prefeitura de Belo Horizonte direitos salariais que lhes estavam sendo negados.

 

OS autores ganharam a ação em primeira e segunda instância, enfrentando o andamento irritantemente lento do processo, não por culpa dos juízes, mas das leis processuais, que criam todos os "quebra-molas" possíveis e impossíveis, para retardar o desate de uma ação judicial. E por culpa, também, ou principalmente, dos órgãos públicos que usam os tais "quebra-molas" para não pagar o que devem.

 

NO artigo, citei um exemplo histórico de espírito público de um prefeito, o engenheiro Luiz Verano. Em face de situação semelhante, ou seja, uma ação perdida pela prefeitura, reuniu em seu gabinete representantes dos autores da ação e advogados que defendiam o município.  Um dos advogados disse a Verano para não se preocupar, uma vez que, apesar de confirmada em segunda instância, da decisão caberiam dezenas de recursos, agravos, embargos, perícias, contestações de cálculos, o que retardaria a execução da sentença por muitos e muitos anos. Para surpresa dos que prometiam protelar indefinidamente a execução da sentença, o prefeito indagou: "Mas os funcionários têm razão, é justo e legal o que eles pedem?" Em face da resposta positiva, decidiu na hora: "É desumano agir dessa forma. Se eles têm razão, se a administração errou, vamos encontrar uma forma de pagamento que não sacrifique a Prefeitura. Recorrer para ganhar tempo não é justo. Vamos pagar o que for devido". Foi o que se fez.

 

POIS bem, no artigo de 30 de novembro de 2010, relacionamos, com base em cópia que um dos autores da ação nos mandou, mais de uma centena de despachos dados no processo, nenhum deles dando a solução final. Despachos usuais, tais como: vista aos advogados dos autores por 30 dias, vista aos advogados do município por 30 dias, autos conclusos para despacho, protocolizada petição, publicado despacho de intimação, juntada de mandado, mandado devolvido, com carga ao perito, conclusos para despacho, conclusos para decisão, embargos de declaração, e por aí vai.

 

EM novembro de 2010, data do artigo, o processo completava 24 anos e quatro meses de tramitação. Mais um ano e dois meses se passaram até agora. E tudo continua na mesma, segundo o mesmo informante. Novos despachos são dados, adiando indefinidamente a decisão final, agora apenas a de pagar. Enquanto isso, diversos dos autores já não estão mais aqui para receber o que a justiça considerou a eles devido.

 

UM juiz da Vara da Fazenda Municipal - diversos já passaram pela causa - demonstrou preocupação com o retardamento do desate final da ação. Vejam o despacho que deu no dia 29 de novembro de 2011, publicado no "Diário da Justiça":

"Intimação. Considerando que o feito envolve pessoas idosas que merecem respeito, atenção e prioridade, considerando, ainda, a complexidade dos cálculos, bem como a juntada das planilhas por parte dos autores e os requerimentos de fls 4806 a 4813, defiro o requerimento do Município, intimando-se, ainda, o Município Executado para, no mesmo prazo improrrogável de 15 (quinze) dias, manifestar-se sobre os cálculos apresentados pelos Autores, devendo a Secretaria do Juízo disponibilizar a totalidade dos volumes do processo, mediante carga. Decorrido o prazo, com ou sem manifestação do Município, dê-se vista aos Autores, para requerer o que entenderem de direito".

 

O DESPACHO do juiz, um juiz justo, até hoje não foi cumprido. O prazo de 15 dias já se transformou em 62 dias. Pelo que se sabe, o processo continua paralisado. E os autores, "pessoas idosas que merecem respeito, atenção e prioridade" continuam esperando. Os que conseguiram sobreviver aos 25 anos e meio de tramitação do processo e os herdeiros dos que não conseguiram sobreviver. A pergunta óbvia: até quando, ministra Eliana Calmon?

FÁBIO P. DOYLE

Da Academia Mineira de Letras

Jornalista   



Escrito por Fábio Proença Doyle às 23h58
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